O Ciclista do ano de 2015: Peter Sagan

Em 2015, para ciclista do ano poderíamos falar de Alejandro Valverde, que venceu algumas das clássicas mais importantes e acabou o ano à frente do ranking UCI, ou de Alberto Contador vencedor do Giro, ou de Chris Froome vencedor do Tour, ou de John Degenkolb vencedor de dois monumentos (Paris-Roubaix e Milão-São Remo) ou de Alexander Kristoff que venceu a Volta à Flandres e dominou a primeira parte da temporada, mas para nós o ciclista do ano não é nenhum deles.
Peter Sagan, começou o ano com o fardo de ter sido a transferência mais badalada e de ter de corresponder ao ordenado chorudo que foi ganhar para a Tinkoff-Saxo e a verdade é que os primeiros meses foram penosos, com muitas azares e segundos e terceiros lugares. 

Os primeiros de Peter Sagan na Tinkoff foram de frustração
Os números de Peter Sagan em 2015, não são dos melhores, por exemplo, Alexander Kristoff tem mais do dobro das vitórias. No entanto, o ciclismo cria os seus heróis não só à base das vitórias, mas também de quem consegue criar histórias que perdurarão na memória dos fieis seguidores da modalidade e Peter Sagan é um desses casos.
A temporada de Peter Sagan em 2015, pode ser dividida em duas partes, o antes e depois da Volta à Califórnia. O eslovaco parecia numa espiral negativa incontrolável, mas os ares da Califórnia haveriam de lhe fazer maravilhas. O estado das coisas era tão mau, que Oleg Tinkov imediatamente antes da prova americana criticou-o duramente, chegou mesmo a afirmar que queria cortar no ordenado do ciclista eslovaco, porque segundo o oligarca russo, não estava a justificar o que estava a ganhar. 
A verdade é que Tinkov tinha alguma razão, mas o que também é verdade é que Sagan bem se esforçava para chegar às vitórias, umas vezes não conseguia porque lhe acontecia algum azar (Paris-Roubaix) outras porque simplesmente ficava sem pernas (Volta à Flandres), até aquele momento apenas tinha conseguido uma vitória, numa etapa do Tirreno-Adriático e o patrão da equipa estava a pressionar.
A resposta foi dada na Califórnia, com duas vitórias de etapa e a conquista da classificação geral, depois de inacreditavelmente aguentar no Mt. Baldy. Nesse dia ficou na geral a 2 segundos de Alaphilippe. Na última etapa, Sagan ficaria em 3º, beneficiando de 4 segundos de bonificação, ganhando a prova por 2 segundos. 

Ainda antes do Tour, o eslovaco foi à Volta à Suiça mostrar que estava em forma, venceu duas etapas. Havia gente que dizia que as palavras de Tinkov tinham tido o efeito, ou seja, colocar pressão em Sagan e este começou a ter resultados, será que foi isso que aconteceu? Provavelmente não, porque o eslovaco na primavera estava claramente em baixo de forma, chegava ao final das provas e rebentava por completo. No entanto, será que as palavras de Tinkov o motivaram a provar ao seu patrão que ele merecia o que ganhava? Provavelmente sim e o que depois aconteceu no Tour, talvez seja a prova disso.
A tenacidade e persistência de Sagan durante o Tour, foi uma das grandes histórias do ano. O eslovaco esteve várias vezes perto de ganhar a tão desejada etapa, que acabou por não conseguir, perdi a conta de quantos segundos lugares fez. Porém tentou quase todos os dias, passou uma boa parte do Tour em fugas, ajudou Contador no pavé, deu espectáculos inesquecíveis como na descida do Col de Manse, disputava todos os sprints e ainda acabava os dias com um sorriso na cara, a brincar com os adversários e com a habitual irreverência nos pódios.

A incrível descida de Sagan do Col de Manse para Gap

No final do Tour a recompensa foi levar pela quarta vez a camisola verde e o respeito de todo o mundo do ciclismo. Porém, para destoar, a organização do Tour decidiu não lhe dar o prémio da combatividade, numa decisão 'muito francesa', completamente incompreensível e muito injusta. Mas uma coisa que a organização do Tour não lhe conseguiu retirar foi o facto dele ter sido, 'a figura' da prova, num dos anos em que o vencedor foi ofuscado por outro ciclista (pedimos desculpa a Chris Froome).
Tinkov no final do Tour parecia rendido, ao afirmar que Sagan tinha sido o homem mais forte do Tour.

A temporada de Sagan ainda não estava terminada e o melhor ainda estava para vir. Na Vuelta, o eslovaco ainda deu o ar da sua graça ao vencer uma etapa, mas depois na 9ª etapa num dos muitos episódios com motas de apoio, teve de abandonar depois de ter sido atingido por uma delas.
A próxima paragem seria os campeonatos do mundo. O percurso da prova de fundo, era à sua medida, porém havia um pormenor que jogava contra ele, praticamente não tinha equipa para o ajudar, ao contrário das selecções mais fortes. Não é uma coisa que ele já não esteja habituado, acontecia isso nos tempos da Cannondale e na Tinkoff apesar de em algumas ocasiões a equipa o ter ajudado, e muitas outras o eslovaco teve muito isolado.
Durante grande parte da prova, Sagan não se mostrou, esteve muito escondido. Até que na última volta, ao seu estilo e no último sector de pavé, ataca, ultrapassa Van Avermaet, ganha uma pequena vantagem e depois mostrou porque é que é o melhor ciclista a descer na actualidade, abrindo um fosso grande lá para trás e sagra-se campeão do mundo.

Peter Sagan vai para o quadro de honra como um dos campeões do mundo mais merecidos de sempre. Fez uma temporada, onde nos deu alguns dos momentos mais fantásticos de ciclismo, desde o desespero pelos consecutivos segundos lugares, passando pela incrível ascensão ao Mt. Baldy, onde acabou completamente esgotado, até aos vários dias seguidos em fuga no Tour, culminando com aquela descida do Col de Manse para Gap, onde no final, apesar de não ter alcançado Rúben Plaza, mostrou todo o seu espírito ao bater no peito. No final questionado o significado daquele gesto, ele respondeu que era relativo ao filme, O Lobo de Wall Street.

Peter Sagan no pódio em Richmond, a mostrar a sua irreverência
Se havia um ciclista que tinha de ser campeão do mundo, era Peter Sagan, os 'deuses' do ciclismo desta vez foram justos e deram o prémio ao melhor do ano. :)

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Bruno Dias

Adora ciclismo e tudo o que se relaciona com bicicletas. O mês de maio e julho são sagrados e tem um carinho pelas clássicas da primavera e pela Volta a Portugal. Ao longo dos anos aprendeu a apreciar a Vuelta.

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