O elixir da eterna juventude de Valverde


Depois da vitória de ontem de Valverde no mundial, assolou-me uma questão: em que categoria se insere o ciclista murciano? Na do 'elixir da eterna juventude' ou na do 'o estranho caso de Benjamin Button'?
A primeira não é preciso explicar, já a segunda não é mais do que uma personagem de uma das obras primas de David Lynch. Benjamin Button era uma pessoa que nasceu velha e doente, mas que a cada minuto que passava rejuvenescia. Mas vamos ao que interessa, Alejandro Valverde é o Benjamin Button do ciclismo?
Para chegar à resposta temos de consultar os números, porque são o único parâmetro que afasta leituras abstratas. Ao longo da sua carreira obteve 122 vitórias, a primeira foi em 2003 e a última evidentemente ocorreu este domingo, ou seja, entre as duas há 15 anos de diferença, o que por si já é notável.

Mas será que as vitórias estão mais concentradas num determinado período da sua carreira? Normalmente um ciclista vence mais durante um determinado período da carreira, o pico da carreira de um ciclista costuma estar entre os 27 e 32 anos. No caso de Alejandro Valverde isso não acontece, ora vejamos o seguinte gráfico:
O espanhol consegue uma consistência incrível, entre 2003 e 2009, até à suspensão por doping, obteve 60 vitórias. Depois da suspensão, apareceu ainda mais forte, desde 2012 até 2018 já tem 62 vitórias e o ano ainda não terminou. Isto quer dizer que 50,8% das vitórias foram alcançadas entre os 32 e 38 anos. 
Se formos ver o número de vitórias no período que habitualmente se situa o pico da carreira de um ciclista, que é entre os 27 e 32 como foi dito anteriormente, o número de vitórias fica pelas 32, isto representa 26% do total de vitórias. No entanto temos de considerar que esteve suspenso 2 anos e foi neste período que venceu a única grande volta no currículo, a Vuelta em 2009.

A concorrência

Mas e a concorrência, será que piorou? Para isso, fomos verificar os tempos numa das subidas que Valverde mais gosta e onde já venceu por 5 vezes (2006, 2014, 2015, 2016 e 2017) a Flèche-Wallone, trata-se do Mur de Huy. Como é uma ascensão curta e explosiva, pensamos que é um bom termo de comparação, já que não há Watts desperdiçados.


Em 2006 e 2007 fez o mesmo tempo, mas só no primeiro desses anos venceu. Em 2014 bateu o record da subida com 539 Watts de média. De 2015 a 2018, os tempos foram semelhantes, mais segundo menos segundo, só este ano foi batido por Alaphilippe.
Conforme se pode perceber pelo gráfico anterior, a linha de tendência de VAM e Watts (média) no Mur de Huy não engana, é bastante estável e até em ligeira subida.

As Grandes Voltas

E nas Grandes Voltas, onde é necessário uma recuperação e gestão de esforço perto da perfeição, a idade tem feito estragos em Valverde?
Das 24 participações, apenas 4 não terminou. Venceu uma Vuelta, ainda antes da suspensão, em 2009. De resto, a sua consistência em estar constantemente entre os melhores é quase surreal, o pior resultado foi um 20º lugar no Tour de 2012. Todos os outros resultados são no top-15, sendo:
  • 2 entre o 10º e 15º lugar;
  • 17 no top-10;
  • 12 no top-5;
  • 8 no pódio:
Antes da suspensão, ignorando os abandonos, esteve sempre no top-10, num total de 7 provas nesse período. Depois da suspensão, em 3 ocasiões ficou fora do top-10.
Depois da suspensão, também conseguiu mais pódios em relação ao período anterior a 2010. Este ano esteve no Tour, onde ficou em 14º, mas na Vuelta voltou a estar na luta pela vitória até perto do fim, cedendo nos últimos dois dias.
No caso das Grandes Voltas, a linha de tendência mostra que o murciano está em quebra, mas mesmo assim, muito ligeira.

Conclusões

Depois disto tudo já estamos prontos para responder à questão inicial: Alejandro Valverde insere-se na categoria de quem bebeu 'o elixir da juventude eterna' ou na do 'estranho caso de Benjamin Button'?
A resposta é simples, Valverde não melhorou nem piorou, o nível é praticamente o mesmo desde 2003, pouco varia. Consegue render ao longo da época, com um número de vitórias interessante e nas Grandes Voltas a sua consistência é à prova de bala.
Resta saber qual é o elixir do murciano, mas que é bom lá isso é.



Bruno Dias

Adora ciclismo e tudo o que se relaciona com bicicletas. O mês de maio e julho são sagrados e tem um carinho pelas clássicas da primavera e pela Volta a Portugal. Ao longo dos anos aprendeu a apreciar a Vuelta.

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