Análise à temporada 2016 de pavé


A temporada 2016 de pavé terminou com grande espectáculo no Paris-Roubaix. Aqui fica a análise a um dos períodos do ano de ciclismo mais excitantes.

Provas
Omloop
A temporada de pavé começa sempre com a Omloop Het Nieuwsblad, e a prova 'aqueceu' como é habitual nos últimos 60 quilómetros. Luke Rowe (Sky) foi o primeiro a mexer significativamente na corrida, ao atacar no Taiaenberg, levando consigo Greg Van Avermaet (BMC), Peter Sagan (Tinkoff), Tiesj Benoot (Lotto-Soudal), e Alexis Gougeard (Ag2R) (estava em fuga, foi apanhado e conseguiu seguir no grupo da frente até perto do final). O grupo conseguiu controlar e manter a vantagem sobre os perseguidores até ao último quilómetro. Na decisão, Greg Van Avermaet (BMC) bateu Peter Sagan  (Tinkoff) num sprint em que o belga superiorizou-se claramente ao eslovaco e aos restantes.

Kuurne-Brussels-Kuurne
A prova começou verdadeiramente a ter interesse quando um grupo com,Van Avermaet (BMC), Boonen e Vermote da Etixx-QuickStep, Stuyven, van Poppel (Trek-Segafredo), Pim Ligthart (Lotto-Soudal), Magnus Cort Nielsen (Orica-GreenEdge), Pierre-Luc Périchon (Fortuneo-Vital), Olivier Naesen (IAM), Luke Rowe (Sky), Tom Stamsnijder (Giant-Alpecin), Antoine Duchesne (Direct-Energie) e Twan Castelijns (LottoNL-Jumbo), construiu uma vantagem de 40 segundos sobre o pelotão. 
Enquanto que no pelotão, Stig Broeckx (Lotto-Soudal) foi ao chão após ter sido atingido por uma moto do médico. A Lotto-Soudal e a Katusha, tentaram de tudo para apanhar os fugitivos mas sem sucesso. Jasper Stuyven atacou na frente, ganhou uma pequena vantagem e a 10 quilómetros o jovem da Trek-Segafredo tinha mais de 30 segundos sobre o grupo perseguidor que nunca mais viu Stuyven, que conseguia uma vitória muito importante na sua ainda curta carreira.

Dwars door Vlandaaren
A prova esteve em sérios riscos de não se realizar devido aos atentados de Bruxelas, porém a prova saiu para a estrada e não cedeu ao terrorismo.
Levou algum tempo até uma fuga formar-se, mas ela apareceu e era formada por: Alexis Gougeard (AG2R La Mondiale), Jesper Asselman (Roompot - Oranje Peloton), Alex Kirsch (Stölting Service Group), Phil Bauhaus (Bora-Argon 18), Igor Boev (Gazprom-Rusvelo) e Kevin Van Melsen (Wanty - Groupe Gobert).
Enquanto isso a Etixx-QuickStep controlava o ritmo na frente do pelotão. Na passsagem pelo Eikenberg e Taaienberg, a 60 quilómetros da meta, Gougeard foi o primeiro a ficar para trás, logo seguido de Boev. A 35 quilómetros da meta, no Oude Kwaremont, Van Melsen deixou para trás os companheiros de fuga.
A 15 quilómetros da meta, havia um grupo que estava na frente, formado por,  Nikolas Maes (Etixx-Quickstep), Durbridge, Scott Thwaites (Bora-Argon 18), Giacomo Nizzolo, Loic Vliegen (BMC), Tiesj Benoot (Lotto Soudal) e Van Melsen, este último tinha sido apanhado. Mas a 10 quilómetros da meta, devido à falta de cooperação na frente, o grupo era apanhado e a 9 do final, Van Avermaet lança o seu ataque, que seria neutralizado bem perto do final, fazendo com que a prova fosse decidida ao sprint. Bryan Coquard (Direct-Energie) festejou a vitória, mas depois na repetição vê-se que Jens Debusschere (Lotto-Soudal) cortou a linha de meta ligeiramente na frente, dando uma alegria aos belgas.

E3 Harelbeke
A prova ainda não tinha começado e já havia uma desistência muito importante, Greg Van Avermaet decidiu não partir devido a um vírus no estômago.
Após alguns quilómetros, estava a formada uma fuga com, Antoine Demoitie (Wanty - Groupe Gobert), Wouter Wippert (Cannondale Pro Cycling), Bert De Backer (Team Giant-Alpecin), Nico Denz (AG2R La Mondiale), Sjoerd van Ginneken (Roompot - Oranje Peloton), Tony Hurel (Direct Energie) e Reto Hollenstein (IAM Cycling). Este grupo teve 6 minutos de vantagem, mas a Tek-Segafredo, controlava o pelotão e a 74 quilómetros do final, no Taiaanberg a diferença desceu dramaticamente.
No Taiaanberg, Roelandts acelerou a corrida e um grupo de 10 homens formou-se com, Tiesj Benoot (Lotto-Soudal), Boonen, Zdenek Stybar, Matteo Trentin e Nikki Terpstra da Etixx-QuickStep, Cancellara, Daniel Oss (BMC), Sep Vanmarcke (LottoNL-Jumbo) e Lars Boom (Astana). Na entrada do Boigneberg, o desviador traseiro da bicicleta de Fabian Cancellara saiu e o suiço foi obrigado a esperar pelo apoio do carro, cerca de 2 minutos.
O que se assistiu depois é história, Cancellara com ajuda da equipa, principalmente de Devolder e numa fase mais adiantada de Stuyven, conseguiu recuperar até ao grupo principal. Stybar também teve problemas, furou e depois aproveitou a boleia de Cancellara para também chegar ao grupo principal, que já tinha mais elementos nomeadamente, Peter Sagan e os homens da Sky, que também tinham encostado.
A 30 quilómetros do final, Kwiatkowski e Sagan, decidem atacar, a Etixx apesar de ter vários homens no grupo principal, não se entenderam e quando começaram a perseguir de forma séria, n já foi tarde. Kwiatkowski no sprint foi mais forte, com Sagan mais uma vez a ter de se contentar com o segundo lugar.

Gent-Wevelgem
Infelizmente a edição deste ano ficou marcada pelo falecimento de Antoine Demoitié, que não resistiu aos ferimentos depois de cair e ter sido atropelado por uma mota.
Ao fim de 3 quilómetros a corrida já tinha um grupo de fugitivo, eram eles, Pavel Brutt (Tinkoff), Lieuwe Westra (Astana), Jonas Rickaert (Topsport Vlaanderen-Baloise), Josef Cerny (CCC) e Simon Pellaud (IAM).
A 160 quilómetros do final, o pelotão ficou cortado, com o grupo atrasado a ficar a quase 1 minuto, alguns candidatos ficaram para trás, Fernando Gaviria e Zdenek Stybar (Etixx-QuickStep), André Greipel (Lotto-Soudal), Nacer Bouhanni (Cofidis), Lars Boom (Astana) e Sep Vanmarcke (LottoNL-Jumbo). No entanto, o grupo atrasado acabaria por conseguir chegar ao grupo principal, num dia complicado para os sprinters.
A passagem pelo Kemmelberg, foi decisiva, por esta altura a fuga já tinha sido alcançada, Matteo Trentin era o único em fuga, e no Kemmelberg era alcançado por, Tiesj Benoot (Lotto-Soudal), Daniel Oss (BMC), Giacomo Nizzolo (Trek-Segafredo) e novamente Pavel Brutt (Tinkoff), no entanto esta fuga não iria ter sucesso, mal foram apanhados, Viacheslav Kuznetsov (Katusha) decidiu atacar, uma decisão que lhe ía trazer dividendos no final.
Vanmarcke ataca no Baneberg, mas é apanhado, no entanto no pavé de Kemmelberg, ele, Sagan e Cancellara aceleram, deixando toda a gente em dificuldades e alcançando Kuznetsov. Os quatro conseguiram chegar até ao final, onde no sprint Sagan foi o mais forte, Vanmarcke foi segundo e Kuznetsov fechou o pódio.

Volta à Flandres
O 2º monumento da temporada proporcionou a quem assistiu à prova, momentos de ciclismo inesquecíveis. 
Os primeiros 100 quilómetros foram realizados a um ritmo muito forte, com muitas quedas à mistura. Destaque para a quedas colectiva da BMC, que deixou de fora Greg Van Avermaet e para Tiesj Benoot que também abandonou devido a queda.
A fuga do dia, foi formada com 70 quilómetros de prova, com,  Hugo Houlé (Ag2r-La Mondiale), Federico Zurlo (Lampre-Merida), Imanol Erviti (Movistar), Lukas Postlberger (Bora-Argon 18), Gijs Van Hoecke (Topsport Vlaanderen-Baloise) e Wesley Kreder (Roompot Oranje Peloton).
André Greipel (Lotto-Soudal) e Nils Politt (Katusha) atacaram no Leberg, que se juntaram a Van Hoecke e Erviti. No Kanarieberg, Dmitriy Gruzdev (Astana) e Dimitri Claeys (Wanty-Groupe Gobert) juntam-se aos quatro da frente.
Na entrada do Oude Kwaremont, o grupo tem cerca de 2 minutos de vantagem. No Kwaremont, deram-se algumas movimentações, Stijn Vandenbergh e Dylan Van Baarle, atacaram e aproximaram-se da frente.
No Taaienberg, Cancellara, Sagan, Stybar, Boonen, Kwiatkowski, Rowe e Thomas conseguiram chegar ao primeiro pelotão. E de seguida surge o ataque decisivo de Kwiatkowski e Sagan, com Vanmarcke a juntar-se, que chegam aos fugitivos.
Na última passagem pelo Oude Kwaremont, Sagan acelera e apenas Vanmarcke consegue acompanhar, enquanto Cancellara, deixa toda a gente para trás e fica a 12/13 segundos do duo da frente.
No Paterberg, Sagan mostrou-se demasiado forte, deixou para trás Vanmarcke, que é apanhado por Cancellara e depois foi um contrarrelógio de Sagan até à linha de meta, para conquistar o seu 1º monumento. Cancellara na sua despedida da Volta à Flandres consegue um 2º lugar e Vanmarcke fecha o pódio.

Scheldeprijs
De todas as clássicas de pavé, é a mais previsível e que raramente não é disputada pelos melhores sprinters. Prova sem história até aos últimos metros, onde, Marcel Kittel deu a única vitória à Etixx- QuickStep durante este período. Mark Cavendish ficou muito perto de bater o gigante alemão, mas mais uma vez viu-se batido por Kittel.

Paris-Roubaix
 A corrida foi atacada desde o inicio. Após os 5 primeiros sectores de pavé, tinha-se formado um grupo com, Sylvain Chavanel (Direct Energie), Matthew Hayman e Magnus Cort Nielsen (Orica-GreenEdge), Tim Declercq (Topsport Vlaanderen-Baloise), Frederik Backaert (Wanty-Groupe Gobert), Borut Bozic (Cofidis), Marko Kump (Lampre), Salvatore Puccio (Sky), Johan Le Bon (FDJ), Maxime Daniel (AG2R), Reinardt Janse van Rensburg (Dimension Data), Imanol Erviti (Movistar) e Yaroslav Popovych (Trek-Segafredo) que conseguiram uma vantagem de 3 minutos e 45 segundos.
Ainda antes do sector 20, dá-se uma queda no pelotão que o divide e deixa para trás muitos dos favoritos, principalmente Peter Sagan e Fabian Cancellara. A Ettix-QuickStep coloca Tony Martin a trabalhar na frente do grupo principal, para que Cancellara e Sagan não conseguissem recolar.
Depois da floresta de Arenberg, o grupo principal dividiu-se, Boonen estava no da frente e atrás seguia Vanmarcke, que colocou a sua equipa a tentar recolar o que viria a conseguir.
Depois do 13º sector, o grupo principal conseguia chegar aos fugitivos e tinham 50 segundos de vantagem sobre o grupo de Sagan e Cancellara, estava Stuyven a trabalhar neste grupo. Depois acontecem as quedas dos homens da Sky, primeiro Luke Rowe e depois Gianni Moscon, que ao fazerem duas curvas, caiem. Mas no grupo atrás, algo ainda mais dramático acontece, Cancellara cai e leva consigo alguns corredores que estavam atrás de si, Peter Sagan consegue escapar, mas fica sem ajuda na perseguição, era o fim do sonho do eslovaco.
Depois do caos, apenas 7 corredores estavam na frente eram eles: Boonen, Erviti, Stannard, Boasson Hagen, Erviti, Vanmarcke e Hayman. No 8º sector, Aleksejs Saramotins, Rowe, Sieberg e Heinrich Haussler conseguiram chegar aos homens da frente.
No Carrefour de l'Arbre, Vanmarcke desfere um ataque, apenas Boonen, Boasson Hagen e Vanmarcke aguentam e recolam. Já em Roubaix, Hayman ataca e apenas Boonen consegue seguir, no entanto no jogo táctico, os dois permitem serem alcançados pelos outros dois, no sprint a quatro, Hayman espanta o mundo do ciclismo e bate Boonen, Stannard fecha o pódio.

Principais figuras
Peter Sagan
Foi indiscutivelmente a maior figura da temporada de pavé deste ano. Foi 2º na E3 Harelbeke, venceu a Gent-Wevelgem e a Volta à Flandres e foi 11º no Paris-Roubaix.
Mas além dos resultados, o espectáculo que ofereceu a todos os que assistiram às provas, foi de grande qualidade. A conjugação destes dois factores, faz com que Peter Sagan seja o ciclista mais popular da actualidade, uma autêntica rockstar, que representa o ciclismo moderno de forma brilhante, além do espectáculo que dá em cima da bicicleta, é uma personagem cheia de carisma fora da mesma.

Fabian Cancellara
Não foi a melhor campanha do Spartacus, mas na sua última presença, o suiço demonstrou o porquê de ser uma lenda do ciclismo. 
A recuperação que fez na E3 Harelbeke, é de compêndio, um dos momentos de ciclismo da temporada até ao momento. A forma como também correu no Oude Kwaremont na Volta à Flandres, é outro momento que demonstra a grandeza do Spartacus, nesse dia Sagan foi o único que resistiu ao suiço. Vai deixar saudades a todos os apaixonados das clássicas do pavé, uma lenda.

Sep Vanmarcke
Um dos ciclistas mais consistentes neste terreno, mas que nunca consegue finalizar o dia no lugar desejado e este ano, mais uma vez a história repetiu-se. Foi 8º na E3 Harelbeke, 2º na Gent-Wevelgem, 3º na Volta à Flandres e 4º no Paris-Roubaix.
O belga como sempre mostrou-se sempre muito atacante, porém foi sempre batido por adversários que se mostraram mais fortes. Mais um ano de grande qualidade de Vanmarcke, que continuará em 2017 a procurar a sua vitória.

Matthew Hayman
Foi a grande surpresa do Paris-Roubaix, ao vencer a prova de forma surpreendente, batendo Boonen ao sprint no velódromo de Roubaix. Foi a 15ª participação do veterano corredor da Orica-GreenEdge, num dia em que Hayman esteve numa fuga desde cedo e depois tacticamente foi perfeito, ao resguardar-se para no final conseguir arrecadar um dos prémios mais importantes do ciclismo.

Tom Boonen
Não foi uma campanha brilhante de Boonen, que foi culminada com uma derrota para Hayman, no velódromo de Roubaix.
A forma como correu tacticamente o Paris-Roubaix foi o melhor que Boonen nos mostrou este ano. De resto, é uma figura incontornável do pavé, um dos melhores de sempre neste terreno e mostrou na rainha das clássicas que ainda está aí para as curvas.

Jasper Stuyven
Venceu brilhantemente a Kuurne-Bruxelas-Kuurne, com um ataque fulminante que acabou na vitória. Na E3 Harelbeke, a sua ajuda foi crucial, na recuperação de Cancellara, realizando uma prova fabulosa, acabou por ser 5º no final.
Esta primavera confirmou que é juntamente com Benoot da Lotto-Soudal, as duas grandes esperanças do ciclismo belga para estas provas.

Michal Kwiatkowski
Kwiatkowski mostrou na E3 Harelbeke que também é um ciclista adequado ao pavé. Venceu a prova, numa demonstração de força, atacou com Peter Sagan e depois bateu-o de forma clara no sprint.
Depois praticamente desapareceu, ainda atentou algo na Volta à Flandres, mas no Oude Kwaremont ficou trás e acabou muito longe dos melhores.

Ian Stannard/Luke Rowe
Stannard foi 3º na E3 Harelbeke e no Paris-Roubaix, numa campanha muito positiva do homem da Sky. Juntamente com Rowe, formaram um duo muito forte.
Demonstraram que a equipa britânica com estes dois, tem o futuro assegurado neste terreno. A exibição de Stannard no Paris-Roubaix também mostrou um ciclista muito ambicioso, ao realizar vários ataques durante a prova. Rowe também mostrou essa faceta nomeadamente na E3 e na Volta à Flandres, onde realizou várias acelerações nos sectores de pavé.

Imanol Erviti
Foi uma figura omnipresente nas fugas do dia na Volta à Flandres e no Paris-Roubaix. Foi-se aguentando ao longo dos dois longos dias e a recompensa foram dois lugares no top-10 nas duas provas.
O ciclista da Movistar, apesar dos 32 anos, demonstrou que nos próximos anos, pode ser o homem da equipa espanhola para este tipo de provas.

A melhor prova: Paris-Roubaix
O melhor ciclista: Peter Sagan
A desilusão: Zdenek Stybar/ Etixx-QuickStep
A revelação: Jasper Stuyven
A melhor equipa: Team Sky
O momento mais triste: O falecimento de Antoine Demoitié
O melhor momento: A recuperação de Fabian Cancellara na E3 Harelbeke


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Bruno Dias

Adora ciclismo e tudo o que se relaciona com bicicletas. O mês de maio e julho são sagrados e tem um carinho pelas clássicas da primavera e pela Volta a Portugal. Ao longo dos anos aprendeu a apreciar a Vuelta.

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