Dubai Tour, um exemplo do 'ciclismo moderno'

Quem ainda não ouviu ou leu as expressões: "novo ciclismo" ou "ciclismo moderno"? Esta semana que passou, decorreu uma prova que representa na perfeição essas duas expressões.
O Dubai Tour foi criado pela entidade organizadora do Giro, a RCS, com o propósito de desenvolver a modalidade na península arábica. Este ano decorreu a 3ª edição e o panorama pouco ou nada mudou por aquelas bandas.
Sabemos que o ciclismo é a modalidade que melhor promove o turismo de uma região. Porém, no Dubai o que há para promover já está promovido, não é esta prova que irá atrair mais turistas à região, antes pelo contrário. Em termos competitivos, as etapas são todas adequadas para os sprinters, basta às equipas dos homens rápidos controlarem a prova e lançarem o seu sprinter nos últimos 200/300 metros. 
Se pegarmos num vídeo da prova de 2014 e depois outro de 2016 e comparar-mos as imagens, podemos ver que as únicas diferenças que há, são as cores dos equipamentos, de resto é tudo igual. Pouco ou nenhum público na estrada, estradas largas, edifícios altos e 'excêntricos', lagos artificiais com zonas residenciais peculiares, ilhas criadas pelo Ser Humano em forma de palmeiras e um hotel de 7 estrelas. Ou seja, esta prova que foi criada para dinamizar a modalidade nos Emirados, não é mais do que uma forma de 'sacar dinheiro' (peço desculpa pelo termo) aos Árabes. O interesse pela prova no Dubai é mínimo, as pessoas que habitam na região, não sabem nem querem saber se alguns dos melhores ciclistas do pelotão internacional estão a correr perto de si, nas suas estradas.

Dubai Tour (Foto:Tim de Waele | TDWsport.com)
Porém, nem tudo é negativo, uma das vantagens da prova no Dubai, são as condições meteorológicas. Enquanto na Europa, o frio ainda reina, nesta altura do ano os ciclistas preferem competir noutras latitudes e o Dubai proporciona isso, apesar de por vezes, o calor apertar.
O Dubai Tour é a primeira das três provas que se realiza por esta altura do ano, na península arábica. Depois os ciclistas vão ao Tour of Qatar e por fim o do Oman.  Enquanto que as outras duas provas, têm características bem próprias, com o Oman a ter inclusive etapas com alguma montanha e o Qatar a ter a constante presença do vento que torna a corrida tacticamente interessante, a prova do Dubai não é mais do que uma corrida em que os ciclistas fazem 100 e alguns quilómetros por dia, em que apenas os últimos 5 a 10 quilómetros são verdadeiramente interessantes, onde as equipas dos sprinters lutam por posicionar da melhor maneira possível o seu sprinter, para o espectáculo final que são os 'tais' últimos 200/300 metros.

A tentativa de globalização do ciclismo por parte da UCI e de entidades como a RCS e ASO, tem sido realizada de forma progressiva de alguns anos para cá. Com a criação de várias provas em novos 'mercados', como por exemplo a América do Norte, América do Sul e Oceania e o sucesso tem sido inegável. Porém também há casos de insucesso, o mais conhecido foi o Tour of Beijing, que inclusive chegou à categoria WT. Até ao dia de hoje a UCI nunca soube explicar muito bem, como é que a prova chinesa chegou à categoria máxima do ciclismo internacional. A prova ficou marcada pelas queixas dos ciclistas e das equipas à comida, à poluição entre outras coisas. Um caso que deve servir de exemplo para o futuro.
Não me espantaria que nos próximos anos, o Dubai Tour passasse a ser WT, desde de que haja dinheiro, tudo é possível e por aquelas bandas o que não falta é 'pastel', mesmo com o preço do petróleo em baixa.

Numa altura em que se saúda o regresso da Vuelta à Comunidade Valenciana, uma prova com uma extensa história e que durante muitos anos foi um porta-estandarte da vitalidade do ciclismo espanhol (desde 2008 que não se disputava e em 2016 voltou, pelas 'mãos' dos irmãos Casero). Não deixa de ser irónico que uma prova como a 'Valenciana' seja recuperada, num período em que algumas das principais entidades que gerem o ciclismo tentam, através de um pretexto, que é a suposta 'globalização ou democratização do ciclismo', criar provas em locais, com poucas condições para promover a modalidade e o Dubai é um desses casos.
Nestes últimos dias bastava ver a etapa de manhã do Dubai Tour e depois de tarde assistir à da 'Valenciana' e parece-me óbvio qual das duas promove melhor o ciclismo.

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Bruno Dias

Adora ciclismo e tudo o que se relaciona com bicicletas. O mês de maio e julho são sagrados e tem um carinho pelas clássicas da primavera e pela Volta a Portugal. Ao longo dos anos aprendeu a apreciar a Vuelta.

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