A credibilidade do ciclismo


Durante o último Tour, mais uma vez, voltou a falar-se até à exaustão do tema que persegue e perseguirá sempre este desporto, o doping.
Não, não irei escrever sobre doping e sobre o quanto este desporto está sujo. Não, não irei falar de Froome e da Sky. O que irei escrever é sobre, a credibilidade do ciclismo, porque quando se fala de certos e determinados assuntos, estamos a tocar na verdadeira ferida que é bem sintetizada com uma pergunta: será que podemos acreditar naquilo que estamos a ver?

Sobre Froome e a Sky, já muito se escreveu. A história do vídeo hackeado levantou muitas questões, legitimas, porque tudo pode ser questionado. Não vou perder tempo a analisá-lo, já muitas análises foram feitas, muitas teorias foram escritas e muito se falou sobre o famoso vídeo. 
Esquecendo isso, o que realmente se dispensa é que dias depois a equipa tenha disponibilizado os dados de Froome. Porque é que a Sky rapidamente disponibilizou os dados? A resposta parece-me óbvia, porque sentiu que a história do vídeo tinha atingido proporções gigantescas e tinham de fazer algo para 'calar' os críticos. 
Isto credibiliza o ciclismo? Não. 

Froome apresentou uma superioridade quase insultante em La Pierre Saint Martin. Aliás a Sky apresentou-se na 10ª etapa, praticamente imbatível, com Richie Porte a terminar em 2º, sendo que uma das imagens marcantes desse dia é a de Porte ultrapassar Quintana. Geraint Thomas também se apresentou a um nível brutal durante duas semanas, falhando apenas nas últimas etapas, mas sendo bem substituído por Poels. Um homem da pista e clássicas que este ano virou trepador também.
A verdade é que Froome nos últimos dias do Tour, já se apresentou bastante mais frágil, perdendo tempo para Quintana, o britânico afinal mostrou ser humano.Porte andou a passear em algumas etapas, guardando-se para outras e Poels apenas apareceu na terceira semana.
O plano da Sky foi esse mesmo, fazer descansar uns dias Porte, noutros Poels e ainda noutros Thomas e funcionou. 
Isto credibiliza o ciclismo? Sim, Froome afinal é humano e a Sky jogou com as suas fragilidades e tentou minorizá-las.

Não é novidade nenhuma que no Tour, quando algum ciclista apresenta uma superioridade gritante, irá ser sempre questionado. Tem sido assim nas últimas décadas e a verdade é que o passado do ciclismo, contribuiu e muito para essas desconfianças.
Infelizmente o ciclismo, deitou-se na cama que fez e está a ser difícil sair dela. A prova disso são as atitudes vergonhosas de algumas pessoas que vão para a beira da estrada, insultar, cuspir, atirar urina e esmorrar ciclistas. Isto ajuda a credibilizar o ciclismo? Não. No dia a seguir a algumas destas cenas, o que aparece nos meios de comunicação mundiais não é o vencedor de etapa, ou o herói que andou 100 e alguns quilómetros escapado, quem aparece é a notícia do 'artista' que atirou um balde de urina a este ou aquele ciclista, porque supostamente acha que ele é um dopado.
Se os verdadeiros adeptos do ciclismo querem que a modalidade se credibilize, também têm de respeitá-la e muitos deles neste último Tour não o fez.

Outro assunto que está na ordem do dia no ciclismo é o chamado, 'doping mecânico'. As bicicletas têm sido verificadas, mas a  polémica contínua na ordem do dia.
No Giro, Mario Cipollini questionou a troca de bicicleta de Contador a meio de uma etapa, no Tour foi a vez de Mikel Landa, em plena transmissão na televisão pública espanhola, na 10ª etapa, ter dito, 'seguramente que mais que um já usaram motor em alguma ocasião'.
Isto vindo de um ciclista, que fez pódio no último Giro, é algo espantoso, surpreendente e chocante. A declaração de Landa é demasiado grave para passar incólume, o ciclista deveria ter sido chamado pela UCI ou pela Federação Espanhola para dar explicações. Se o basco sabe de algo, é bom que o concretize e não lance suspeitas sem saber algo de concreto.
Como é óbvio, isto não ajuda a credibilizar a modalidade e o ciclismo terá de saber viver com este clima de constante desconfiança. 

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Bruno Dias

Adora ciclismo e tudo o que se relaciona com bicicletas. O mês de maio e julho são sagrados e tem um carinho pelas clássicas da primavera e pela Volta a Portugal. Ao longo dos anos aprendeu a apreciar a Vuelta.

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