O que mudará com David Lappartient?

David Lappartient (imagem retirada do seu programa 'ourpassion')
Na última quinta-feira (dia 21 de setembro) realizou-se a eleição para a presidência da UCI. E o resultado foi algo surpreendente, David Lappartient derrotou o até então presidente, Brian Cookson. A surpresa não está propriamente na vitória, mas sim, na diferença de votos entre um e outro, em 45, o francês arrecadou 37 e o inglês apenas 8.
Uma vitória esmagadora que pode ser entendida como uma rejeição das politicas de Cookson, levadas a cabo nos últimos quatro anos.

Como Brian Cookson perdeu?

Após o congresso que ditou o seu afastamento, Cookson não escondeu o choque e revolta, afirmando ter sido enganado por vários delegados.
"Dói. Os delegados mentiram-me...esperava ter mais de 20 votos." disse Brian Cookson
Desde 2013 que Cookson liderava a UCI, num mandato marcado pelo domínio da Team Sky, pela polémica do doping mecânico e pelos problemas no British Cycling, instituição que Cookson comandou antes de chegar à UCI. 
Alguns dos seus apoiantes viraram-lhe as costas, logo para começar, David Lappartient, que em 2013 apoiou Cookson, desta vez decidiu avançar para a liderança da UCI. Outro apoio importante que deixou de ter, foi o de Igor makarov. O russo é um dos principais membros do comité de gestão da UCI, sendo também presidente honorário da Federação Russa. É um dos homens mais influentes dentro da instituição.
O ex-presidente da UCI, antecessor de Cookson, Pat McQuaid é um assumido opositor do inglês e fez campanha por Lappartient, usando a sua influência na angariação de delegados para a causa do francês.

Quem é David Lappartient?

Lappartient tem 44 anos, é diplomado em Engenharia pela escola especial de engenharia civil de Paris (ESTP). Foi presidente da Federação Francesa de Ciclismo entre 2009 e 2017, um pouco há imagem de Cookson, que quando foi escolhido para liderar a UCI, era presidente do British Cycling (1996-2013).
Desde 2013 que é presidente da União Europeia de Ciclismo (UEC). Nesse mesmo ano, apoiou Cookson para presidente da UCI, com a eleição do britânico, Lappartient passou a ser Vice-Presidente da UCI.
Em 2005 foi eleito pela primeira para o conselho executivo da UCI, o que significa que Lappartient apesar de ser mais jovem do que Cookson, tem uma vasta experiência nos meandros da organização. Os conhecimentos adquiridos no seio da modalidade ao longo destes anos foram muito importantes para esta eleição. Enquanto Brian Cookson se entretinha a dar entrevistas, onde achava que tinha vantagem e tinham-lhe garantido 30 votos, o francês trabalhava nos bastidores.
O apoio dos delegados europeus era esperada, o que não se esperava é que 37 dos 45 delegados votassem no francês, numa votação esmagadora e que demonstra que o apoio não veio só dos europeus.

Quais são as principais propostas?

O francês não diverge muito de Cookson nalguns objetivos, como por exemplo: globalizar o ciclismo, cimentar a posição da modalidade no movimento olímpico, encorajar a inovação técnica e criar condições para o crescimento sustentado do ciclismo feminino.
No entanto o seu programa contém diversas propostas que o diferencia do britânico, por exemplo:
  • remodelação total do calendário, que consiste em dividi-lo em séries: grandes voltas, clássicas de um dia e provas por etapas curtas. Cada série teria um prize money e seriam organizadas por tipo de corrida e continente;
  • implementar uma monitorização das finanças das equipas, isto pode significar que está a pensar pôr em prática um sistema parecido ao que se usa no futebol, com o 'fair-play financeiro';
  • centralizar os direitos televisivos das provas na UCI, de forma a vendê-los, gerando dinheiro para a organização e controlando toda a parte comercial;
  • atacar o problema do 'doping mecânico'. Este foi um dos graves problemas da UCI durante o mandato de Cookson. Os famosos Ipads a fazerem uma inspeção antes e depois das provas/etapas provou-se ineficaz. Como serão feitas as novas inspeções e também como será atacado o problema na raiz, não foi ainda revelado;
  • alargar a lista de substâncias proibidas. Destaque para a total proibição (durante as provas e fora delas) dos Corticosteroides e dos potentes anti-inflamatórios muito usados para ajudar o emagrecimento, a fadiga e a recuperação;
  • quer tornar as corridas mais 'naturais', sem tantas ajudas tecnológicas, ou seja, propõe abolir os rádios e os potenciómetros durante as provas. Esta proposta vai um pouco contra aquilo que ele também defende e já referido acima, que é o encorajamento à inovação técnica;
  • abolir a prova de contrarrelógio coletivo por equipas nos campeonatos do mundo;
  • aumentar o número de provas que se disputarão em circuitos, permitindo uma redução de custos na transmissão das mesmas e uma proximidade maior do público à modalidade ;
  • a cada quatro anos, juntar as quatro 'modalidades' (Estrada, Pista, BMX e BTT) nos campeonatos do mundo. A proposta é fazer no ano anterior a cada jogos olímpicos;
  • realizar uma edição dos campeonatos do mundo nos próximos anos em África. Esta proposta deve ter sido decisiva para colocar os delegados africanos do seu lado.

O que se espera dele

O programa de Lappartient é ambicioso, mas realisticamente diversas propostas serão difíceis de executar. A mudança também não é propriamente radical e os delegados sabiam que ao eleger o francês, a UCI não iria ter uma politica completamente nova, já que Lappartient era vice-presidente da organização e está bem por dentro do funcionamento da mesma.
Um dos pontos fortes, é a sua imagem de bom politico e isso na UCI é essencial, até porque os poderes no ciclismo estão muito dispersos por diversos 'atores'. Um exemplo foi a dificuldade que Cookson teve, em chegar a acordo com os organizadores das provas, em diversas matérias. A ASO (organizadora do Tour, Vuelta, Liège-Bastogne-Liège e outras), Flandres Classics  (organizadora da Volta à Flandres e outras) e RCS (organizadora de Giro d'Italia e outras), são os principais organizadores de provas e têm um poder bastante grande na modalidade, por vezes não se coíbem em usar a sua força para conseguir o que querem. Lappartient é conhecido por ser uma pessoa bastante próxima da ASO e o período que esteve à frente da Federação Francesa ajudou a essa aproximação. No entanto, não se espera que ceda a todos os caprichos da ASO e é aí que a sua capacidade de se mover nos meandros da modalidade, pode ser importante, jogando em diversos tabuleiros.
As equipas e os ciclistas são outros dos 'atores' importantes e que não devem ser ignorados. Uma parte das equipas do World Tour têm-se organizado e o projeto Velon é exemplo disso. Ouvir o que as equipas e associação de ciclistas têm para dizer, as ideias que têm para o futuro da modalidade, juntá-las e desenvolvê-las, talvez não seja um mau começo, até porque sem corredores e equipas, o ciclismo não existiria.

Em relação a acções práticas, que afectarão no imediato e directamente as corridas, temos o clássico desafio, da luta contra o doping. Mas desta vez, há outro doping que preocupa os diversos agentes da modalidade, o mecânico. Encontrar uma metodologia eficaz, coisa que não existiu durante o mandato de Cookson e realizar controlos em grande número de forma a apertar o cerco aos batoteiros, desencorajando o uso de motores, é essencial.
Lappartient também não é fã do uso do rádio e do potenciómetro durante as corridas. Ele e a sua equipa terão de reflectir bem na proibição destas duas ferramentas, principalmente dos rádios, que são importantes para a segurança dos ciclistas. Em relação ao potenciómetro, alguns corredores defendem a abolição dos mesmos durante as corridas. 
A remodelação do calendário conforme ele pretende vai ser muito complicado de alcançar, assim como a centralização dos direitos televisivos na UCI é algo um pouco utópico. Nestas duas questões há diversos interesses instalados de organizadores e federações internacionais, que deverão impedir o desejo de Lappartient.
Sobre as promessas relacionadas com os campeonatos do mundo. Uns mundiais em África é um desejo realizável, a África do Sul é o candidato natural a recebê-lo, até porque o trabalho que está a ser feito no país tem sido bastante bom, com a Dimension Data a ser o resultado visível disso. A abolição do contrarrelógio por equipas é uma decisão que deve ser discutida com as equipas. E o desejo de 4 em 4 anos reunir todas as disciplinas do ciclismo, é uma ideia interessante, mas não sabemos até que ponto será realista.

O grande desafio de David Lappartient é o mesmo que tem sido imposto aos últimos presidentes da UCI, credibilizar uma modalidade que vive em constante descrédito. Como irá conseguir fazer isso, é uma boa pergunta. Brian Cookson fez questão de seguir uma linha oposta à de Pat McQuaid, seu antecessor. Acreditamos que Lappartient não irá seguir o exemplo de Brian Cookson, ou seja, não irá rejeitar tudo aquilo que o antecessor construiu, até porque ele era vice-presidente e não pode renegar isso. No entanto, o francês é um politico mais astuto e a derrota estrondosa de Cookson prova um pouco isso. 

Desde 2005 que o presidente era oriundo das ilhas britânicas, com a eleição de Lappartient, o presidente volta a ser um europeu continental, as expectativas são elevadas como sempre acontece quando um novo líder é eleito.



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Bruno Dias

Adora ciclismo e tudo o que se relaciona com bicicletas. O mês de maio e julho são sagrados e tem um carinho pelas clássicas da primavera e pela Volta a Portugal. Ao longo dos anos aprendeu a apreciar a Vuelta.

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